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Gota: um problema real

Essa forma de artrite causada pelo excesso de ácido úrico circulante e famosa por provocar dores terríveis não aflige só o sexo masculino. Um novo estudo revela que refrigerantes e bebidas açucaradas elevam seu risco também nas mulheres.


Foi-se mesmo o tempo em que a gota merecia a alcunha de doença dos reis. A história e a ciência ensinam que não é preciso pertencer à nobreza e se refestelar em um banquete regado a cerveja ou vinho para acordar, no dia seguinte, berrando de dor diante de um dedão do pé inchado. E, agora, o martírio deixará de ser visto como quase uma exclusividade dos varões. Uma pesquisa da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, acusa: refrigerantes e sucos industrializados cheios de açúcar, presenças marcantes em uma mesa do século 21, aumentam a probabilidade de uma dama sofrer de gota.
A associação inusitada veio à tona depois de um acompanhamento de 778 americanas. Quem bebia pelo menos duas latas de refri comum ou de suco de laranja diariamente apresentava um risco duas vezes maior de enfrentar essa artrite — as bebidas diet não parecem incitar o problema.
Mais inusitado ainda é o fato de a gota dar as caras entre elas, afinal trata-se de uma doença bem mais rara no sexo feminino. “Para cada mulher acometida, são oito homens”, compara o reumatologista Páblius Braga, do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. Vale esclarecer também a origem do suplício: ele é motivado por uma sobrecarga de ácido úrico no sangue. “Uma vez produzida no corpo, essa substância não pode ser reaproveitada”, afirma o reumatologista Ricardo Fuller, chefe da Unidade de Gota do Hospital das Clínicas de São Paulo.
O perigo ronda quando o ácido começa a se acumular na circulação. “Isso acontece por um excesso de produção ou, o que ocorre em quase 90% dos casos, uma falha em sua eliminação pelos rins”, explica Fuller. No corpo de alguns predestinados geneticamente, a substância viaja até as articulações — o dedão do pé, o tornozelo, o joelho ou o cotovelo — e se transforma em cristais, despertando uma inflamação. Aí é gota! “O indivíduo sente uma dor insuportável. Às vezes, não consegue nem colocar o lençol sobre a área inflamada”, conta Braga.
Você, leitor curioso, deve agora se perguntar: e o que refris e companhia têm a ver com a tal da gota? O elo ainda não foi completamente elucidado, mas os especialistas enxergam uma ligação indireta. Vamos ao raciocínio: pessoas que extrapolam nessas bebidas, ricas em um tipo de açúcar chamado frutose, tendem a acumular mais gordura no abdômen e desenvolver a resistência à insulina — o hormônio que leva a glicose às células deixa de funcionar direito. “Nessa condição, parece haver um aumento da concentração de ácido úrico no sangue”, diz a nutróloga Isolda Prado, da Associação Brasileira de Nutrologia. Bem, se a substância sobra no organismo, os menos sortudos encontrarão uma gota no meio do caminho. E pensar que antigamente toda a culpa recaía sobre o álcool.
Um levantamento recém-concluí do nos Estados Unidos aponta um crescimento no número de vítimas da gota. No Brasil, a situação não deve ser muito diferente. Os hábitos que levam à obesidade e à síndrome metabólica — reunião de problemas como hipertensão, colesterol alto e diabete — estão costurados a um maior risco dessa artrite. O famoso tiozão do churrasco, barrigudo, guloso e adorador de cerveja, é o candidato número 1 a tropeçar na dor. Mas mesmo quem tem nos genes a receita para o tormento pode afastar as crises ou minimizar seu impacto. Tudo é questão de conhecer os gatilhos e, o principal, seguir o tratamento à risca (veja o quadro abaixo).
“As crises são mais flagrantes quando a temperatura cai e, por isso, costumam se manifestar à noite”, diz o reumatologista Sergio Lanzotti, diretor do Instituto de Reumatologia e Doenças Osteoarticulares, na capital paulista. É que o termômetro em baixa facilita o aparecimento dos cristais. Até mesmo esforço físico em demasia ou traumas podem precipitar o ataque. Algumas situações, aliás, são propícias para o sofrimento das juntas, porque elevam a carga de ácido úrico no sangue. “Quadros de infecção e câncer, que envolvem morte e multiplicação celular, favorecem a gota quando há tendência a ela”, afirma Ricardo Fuller. Por outro lado, rins inoperantes também patrocinam, sem querer, o martírio (veja o infográfico ao lado).

Outra fonte do desgosto — e nessa podemos interferir de fato — é o cardápio. “Entre 18 e 20% do ácido úrico do corpo vem da alimentação”, estima Isolda Prado. Pessoas com predisposição devem moderar em itens que aumentam a formação da substância no corpo, como carnes, feijão e grão-de-bico. Vale restringir os frutos do mar com casca, como camarões, lagostas e mariscos, redutos de purinas, que serão convertidas em ácido úrico. “O álcool também deve ser evitado ao máximo, porque reduz a excreção dessa substância”, observa Lanzotti. A cerveja, então, parece ser a gota d’água para a erupção da crise. “Além de álcool, ela tem cevada, cereal munido de purinas”, justifica Isolda.
A sugestão não é aderir a uma dieta tirânica, que corta qualquer regalia à mesa, mas cultivar um menu equilibrado, farto em vegetais e não tão carregado de carnes, frutos do mar, bebidas alcoólicas e, como a ciência sugere agora, refrigerantes e sucos industrializados. A atividade física também é bem-vinda, porque ajuda na manutenção do peso e na prevenção das desordens que andam de braços dados com a gota — só não dá, é óbvio, para se exercitar em meio à crise. Quem segue um estilo de vida saudável (e não repudia o tratamento) pode relegar o problema a um passado distante.
Fonte: Abril
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